Nos seus quadros, Gersion procurou retratar alguns momentos da realidade cotidiana dos moradores da vila, assim como parte
de sua infância. Retrata com realismo o lugar onde crianças, mulheres e homens viveram o seu cotidiano de brincadeiras e
luta.
Mas Gersion sente que, com o velho Paranoá, muita coisa boa desapareceu, como a amizade, a simplicidade e a espontaneidade
das pessoas. Foi este passado que tentou resgatar com seus quadros e suas poesias. Suas telas retratam o Paranoá antigo,
aquele que as máquinas derrubaram, destroçaram e reduziram a nada. Quantos sonhos foram ali sepultados, quantas lágrimas
aguaram aquele solo, quantos barracos, apagados para sempre do Planalto Central.
As estreitas ruelas com seus vários nomes e becos, o chafariz, as lavadeiras na bica, as brincadeiras de garoto, os
domingos de feira, as festas de São João, a igreja São Geraldo, o pequeno barraco de madeira e de chão batido onde morou
com os pais e dez irmãos, a vida dura dos que ali moravam, a derrubada dos barracos e os protestos contra a retirada da
vila do local. Todas essa cenas foram resgatadas nas obras de Gersion.


CERRADO
Em meio ao cerrado,
Nasce, surge a Vila,
Inicialmente um acampamento,
Encravado no seio do cerrado,
Logo espalha-se a notícia em todos os recantos,
Onde o vento sopra as vezes rasteiro,
Levando a poeira,
Em grande redemoinhos,
Neste lugar a notícia cresce então,
De um acampamento,
Em uma Vila se transforma...
Em meio a planos altos,
Cerrado,
Árvores tortas,
Flores das mais variadas,
Frutas das mais diversas qualidades,
Araticum,
Piqui,
Cirigüela,
Jatobá,
E muito mais...
Tons ocres,
Terra,
Azul,
Lilás,
Verdes,
Mais verdes...
Outras vegetações se misturam ao cerrado,
Abacateiros,
Mangueiras,
Goiabeiras
As mais variadas plantas,
Os mais variados tons,
Misturando-se aos barracos coloridos,
Como rendas espalhadas ao vento,
Clima urbano, interiorano,
Gente na Vila, “Favela”,
No planalto central,
Em Brasília,
Distrito Federal.

Os Curiosos
Em minhas pinturas, uso a memória como uma das principais ferramentas de meu trabalho e no quadro “Os curiosos”, retrato
cenas de fatos que marcaram minha infância e que para mim eram descobertas do meu pequeno mundo de criança, a morte de
um porco num açougue improvisado, ao lado de minha casa.
Dona Terezinha e Seu Chico Gê (in memória) todos os fins de semana (sábado) matavam um ou dois porcos e os curiosos em sua
maioria crianças circulavam a barraca de fundos, cercado de arame, para ver aquela cena chocante que era a morte do porco,
mas não só para isso, pois depois do animal morto podia sobrar das parte do animal que era oferecido por Dona Terezinha
para as crianças, o torresmo (couro com gordura) frita que era a alegria do meninos “Curiosos”.

Mais Um Dia de Protesto
Desde minha infância e toda minha adolescência presenciei muitos fatos marcantes, movimentos de protestos, onde pessoas
do Grupo jovem da igreja católica, a Associação de Moradores do Paranoá, mais tarde o CEDEP – Centro de Cultura e
Desenvolvimento do Paranoá e outros seguimentos da Vila e até de fora como Ordem dos Advogados, Universidade de Brasilia –
UnB, dentre outros, moviam-se em torno de questões como melhores condições de vida, como saneamento básico, mais escolas,
educação de qualidade, projetos de alfabetização de jovens e adultos, posto de saúde e ainda reconhecimento da Vila Paranoá
como cidade do Distrito Federal.
Pois mesmo a comunidade tendo surgido na época da construção de Brasília, em 1957, até os anos 80 ainda era considerada
uma ocupação irregular e éramos constantemente discriminados e chamados de invasores, mas depois de muitos protestos, como
o movimento pela fixação da cidade, ainda memorável movimento do barraço em 1986, seguido de greve de fome da jovem
pioneira Maria Delsione da Silva, presidente da Associação de Moradores, seguido também por vários protestos da comunidade
local, em frente ao Palácio do governo local, como ato de protesto às represárias policiais, finalmente, em 1987, através
de decreto assinado pelo governador à época, Senhor José Aparecido, o Paranoá ganhou o título de cidade e em 1989, começou
a grande transformação da Vila, hoje, cidade.
No quadro “Mais um dia de protesto”, procuro retratar um dos grandes momentos da vila, através do movimento de Fixação,
marcado com gritos de guerra, como “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”, “queremos água”, “
queremos luz ”, “queremos escola” ”queremos saúde”...
Posso ainda falar que o quadro é uma homenagem aos pioneiros, a luta pelo reconhecimento da vila como cidade, também
homenagem a pessoas como Maria Delsione da Silva, Benedito Prézia, Movimentos populares, Universidades, dentre outros
que participaram de todo o processo de transformação do Paranoá.
Este poema reflete un pouco do que comento:
FIXAÇÃO
Fixação!!!Fixação!!!
Todos clamavam por
Fixação.
Uma constante insistência,
Uma luta sem fim,
Uma procura de solução.
Daqui não saio,
Muito menos alguém me tira.
As autoridades derrubam,
A gente constrói.
Arranca barracos,
Não adianta,
A gente não sai!
O pé firmou,
Agora veja como ficou.
O Paranoá se transformou,
Cresceu,
Virou uma grande cidade,
Evoluiu,
Ficou...
Aqui fiquei,
Estou...

Lata D’água Na Cabeça
No quadro “Lata d’água na cabeça”, como em outros quadros, sempre estão presentes as figuras das mulheres carregando
água na cabeça, cenas do cotidiano da Vila Paranoá, mulheres guerreiras, muitas vezes carregando não só latas, mais bacias
de roupas, crianças no colo ou ainda por nascer, mas sempre mulheres guerreiras, subindo e descendo serras, cuidando de
seus lares e as vezes até correndo perigo, no meio da mata do cerrado, levando sustos de homens mal intencionados.
Outro poema:
A BICA
No meio de um matagal
Cerrado
Homens pelados
Tomam banho numa bica
Mulheres a transitar para todo lado
Lavando roupa num córrego ao lado.

Arteiros No Pau-de-Sebo
Um vizinho nosso, morador da rua João Pessoa, fundo com a rua Souza (minha rua), chamado Francisco Arteiro de Paiva, amigo de meu pai, por muitos anos, todos os sábados de aleluia, nas tardes
de sábado, organizava uma brincadeira chamada “malhação do Judas”, que consistia em colocar um boneco feito de pano, bem
vestido com paletó e gravata, no alto de um mastro banhado de sebo (gordura), tendo dentro de sua gravata dinheiro que era
o prêmio para quem chegasse no final do mastro.
Em torno do mastro, muitos pessoas que assistiam a cena ou tentavam subir no mastro cheio de sebo, para ganhar o prêmio.
Várias tentativas frustante, pois era muito escurregadio, mas enfim algum aventureiro conseguia e no final era aquela
folia, tirava o prêmio e derrubava-se o boneco e abaixo a comunidade presente, queimavam o boneco de pano, uma verdadeira folia.
No quadro “Arteiros no pau-de-sebo” procuro congelar este momento e ainda homanegear pessoas como Francisco Arteiro, e
ainda em memória das festas populares de São João, folia de reis, forrozeiros como Chico Sanfoneiro, também organizadores
das festas juninas como Deliomar, Irany, Santos (in memória), Mironeide, Humberto, João do Violão, dentre outros, todos
moradores da vila, que de maneira criativa trazia diversão a humilde Vila Paranoá, em forma de cultura regional, tipicamente
Brasilieira

Domingo de Clássico na Vila
Tínhamos um grande campo de futebol no meio da Vila Paranoá, de chão batido.
No meio da semana, em sua maioria crianças e adolescentes, brincavam de bola, andavam de bicicleta, corriam para todos
os lados naquele grande quadrado de areia e nos finais de semana, principalmente no Domingo, era usado para os “peladeiros”
de plantão e futuros profissionais do futebol. Acontecia vários campeonatos de futebol e vinha ainda times de outras cidades do
Distrito Federal para jogar no “Campão” como era conhecido. Era um verdadeiro local de lazer de fim de semana na Vila
Paranoá, onde reunia famílias para ver as partidas, chupar picolé, comer salgadinhos, doces, e outras coisas vendidas
ao redor do campo, uma festa para criançada.
Lembro-me de minha infância quando meu pai, todos os domingos levava eu e meus irmãos pequenos para assistir as partidas
de futebol.

Inocência na Infância
Um auto retrato meu, mostrando meu cantinho de brincar, simples, onde sem querer estava delineando meu futuro como
artista, na inocência de minha infância, empurrando meu carrinho de brinquedo, usando a criatividade, mesmo vivendo nas
condições em que vivíamos.
Crianças que como eu criavam seus brinquedos com pneus velhos de caminhão e cabos de vassouras ou rodo, construiam
carrinhos de brinquedo com latas vazias de óleo, com pedaços de paus e o que apecesse pela frente, fazendo também do chão
batido uma forma de brincadeira, construindo casinhas e caminhos para os carrinhos improvisados. Minha “Inocência na
infância”.